Depoimento ------
MICHELANGELO ANTONIONI

Depoimento concedido á prestigiada revista Cahiers du Cinéma em outubro de 1960

A CONCEPÇÃO DO FILME, O SURGIMENTO DA IDÉIA

Não sou um teórico do cinema. Se me perguntar o que é dirigir, a primeira resposta que vem à minha cabeça é: não sei. Todas minhas opiniões sobre o assunto são meus filmes. Entre outras coisas, sou contrário a qualquer separação entre as várias fases do trabalho. Cada etapa tem um exclusivo valor prático. É valioso para todos aqueles que participaram do processo - exceto para o diretor, se acontecer dele ser ambos, autor e diretor, ao mesmo tempo.Falar de dirigir uma das fases no trabalho é se engajar em uma discussão teórica que me parece se opor à unidade com a qual todo artista deveria se comprometer durante sua concepção. E durante isso, não estamos automaticamente trazendo á questão o tema do diálogo em si, o real mérito que não é nunca revelado até se ouvirem as vozes dos atores?

Claro que o momento sempre chega quando, tendo coletado idéias, certas imagens, uma intuição de um certo estilo de desenvolvimento - seja psicológico ou material - precisamos passar então para a realização. No cinema, assim como nas outras artes, este é o momento mais delicado - o momento quando o poeta ou escritor fazem ssua primeira marca na página, na pintura, quando o diretor arruma seus personagens no seu cenário, faz com que eles falem e se movem, estabeleçam-se, enfim, em certas composições de suas várias imagens, uma relação recíproca entre pessoas e coisas, entre o ritmo do diálogo e a sequência toda, fazendo a câmera ver a situação psicológica. Mas o momento mais crucial de todos chega quando o diretor reúne de todas as pessoas que o cercam cada possível sugestão,com o objetivo de que seu trabalho possa originar um elenco mais espontâneo, talvez tornar-se mais pessoal e, nós poderíamos mesmo dizer - num sentido mais amplo - mais autobiográfico.

Cada estágio na criação de um filme tem uma importância. Não é verdade que seja possível determinar uma clara distinção entre eles. Eles todos entram juntos no resumo final. Assim ocorre que, durante a concepção do tema, um particular tipo de tomada pode ser decidida, durante a tomada um personagem ou situação pode ser modificada, ou durante a sincronização, um ou mais falas podem ser alteradas. Para mim, desde o momento quando a primeira, ainda não formada idéia surge em minha cabeça até a projeção final, o processo de concepção de um filme constitui-se um único trabalho. Quero dizer que não fico interessado em nada, dia e noite, que não seja meu filme. Não deixe ninguém pensar que esta é uma atitude romântica - pelo contrário, me torno relativamente mais lúcido, mas atento, e quase posso sentir como se fosse mais inteligente ou pronto para entender melhor as coisas.

Ninguém precisa ver que o scrpit é menos detalhado do que quando é filmado, menos detalhado até quando já se passaram anos que foi escrito. As direções técnicas tem quase que inteiramente desaparecido. Cheguei ao ponto de deixar de colocar o número usado para cada cena. ( a roteirista é a única pessoa que ainda o usa, porque no seu entender facilita seu trabalho ). E isso, porque me parece mais lógico dividir as cenas enquanto você as roda. Então, temos uma brecha para a improvisação.

Mas há os outros. Eu raramente sinto vontade de reler uma cena um dia antes de gravá-la. Às vezes, chego no local de filmagem e não faço absolutamente nada quando estou me preparando para gravar. Este é o sistema que prefiro: chegar no momento, quando a gravação está para começar, absolutamente despreparado, virgem. Frequentemente peço para que me deixem sozinho por quinze minutos ou meia hora e me deixo levar pelos meus pensamentos. Não faço nada, apenas observo. Sou, na verdade, auxiliado pelas coisas que me cercam, coisas talvez mais do que as pessoas, apesar do segundo ser o que me interessa mais.

De qualquer maneira, encontrei uma maneira muito útilo de observar as locações e sentir sua atmosfera enquanto aguardo os atores. Pode acontecer das imagens ante meus olhos coinscidirem com as que pensei, mas frequentemente não é o que ocorre. Frequentemente ocorre destas serem algo prepotentes ou artificiais sobre as imagens que tenho em minha mente. Está aqui outro caminho para a improvisação.

Mas não é tudo. Também ocorre de, ás vezes, enquanto estou tentando gravar uma cena, abruptamente mudar algo em minha mente. Ou eu a muda gradualmente, enquanto a câmera testa a luz ou eu observo os atores andando e conversando. Na minha opinião, é somente então que pode-se fazer um julgamento adequado de uma cena e corrigi-la.


A IMPORTÂNCIA DO SOM

Atribuo enorme importância á trilha sonora, e sempre tento empregar grande cuidado nela. E quando falo em trilha sonora, estou falando sobre sons naturais, ruídos de fundo, mais do que a música. Para L'Avventura, tive enorme número de efeitos de som gravados: cada possível característica de mar, mais ou menos revoltado, o ruído das ondas nas cavernas. Tive uma centena de fitas gravadas com nada mais do que efeitos de som. Então eu selecionei aqueles que vocês ouvem na trilha sonora do filme. Para mim, esta é a música verdadeira, a música que pode ser adaptada às imagens. A música convencional raramente se funde com a imagem, mais comumente não faz nada mais do que relaxar o espectador, e preveni-lo do que pode acontecer. Após longa consideração, sou relativamente contra o chamado "comentário musical", pelo menos na forma como se apresenta hoje. A solução ideal seria criar uma trilha sonora de ruídos e chamar um maestro para conduzi-los. Mas então, que orquestra seria mais capaz de fazê-lo do que o diretor em pessoa?

A ESCOLHA DE CRIAR AS PRÓPRIAS HISTÓRIAS

O princípio por detrás do cinema, assim como por trás de todas as outras artes, reside numa escolha. É, nas palavras de Camus, "a revolta do artista contra o real".
Se acreditar nesse princípio, que diferença pode fazer o significado da realidade revelada?O autor de um filme apodera-se da realidade em um romance, em uma história de jornal ou em sua própria imaginação, o que se leva em conta é a maneira dele isolá-la, estilizá-la, fazê-la, enfim, a sua própria realidade. O enredo de "Crime e Castigo", distanciado da forma dada por Dostoievsky, é perfeitamente um enredo original. Poderia-se fazer um belo ou um horrível filme para se ver. É por isso que eu quase sempre escrevo as histórias para meus filmes. Aconteceu uma vez de sentir "amor à primeira vista" por uma novela de Pavese. Enquanto trabalhava nela, percebi que eu gostei dela por razões completamente distintas daquelas que me fizeram imaginá-la um filme. E as páginas que me interessaram mais foram aquelas que se usaram menos na adaptação para o cinema. Então, mais uma vez, é muito difícil captar a essência da história de outra pessoa. Assim, na longa jornada, concluí ser muito mais simples criar a história toda. Um diretor é um ser humano, então ele tem idéias, ele é também um artista, além de ter imaginação. Sendo bom ou ruim, parece que tenho uma abundância de histórias para contar. E as coisas que vejo, as coisas que acontecem comigo, continuam renovando esse estoque de histórias.


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A Concepção do Filme - depoimento à Cahiers Du Cinema

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