Seção em Desenvolvimento. Confira ao lado os futuros astros e estrelas comentados

Acima dos Pobres Mortais ou Peões da Indústria?

  • Fonte Auxiliar: CinemaNet

Alfred Hitchcok bradava em alto e bom som que os atores, para ele, eram gado. Trata-se de uma afirmação de um diretor tipicamente responsável por todos os aspectos de seu filme. Hitchcok preferia escrever o roteiro e imaginar o filme do que gravá-lo. É de se entender seu ponto de vista. Vários diretores prescindiam da figura do ator para fazer de seu filme um sucesso - outros apoiavam-se diretamente neles. Isso não mudou até os dias de hoje, onde o simples nome de um ator leva milhões de pessoas aos cinemas - o que não significa que a ausência de um nome famoso venha a trazer fracasso á produção.

O que é fácil de notar, nos dias de hoje, é a ausência da aura de magia e do estrelismo que se formou na Hollywood até a metade do século. Dulce Damasceno de Brito, correspondente da revista SET nos Estados Unidos afirma sentir saudades do tempo em que entrava nos camarins dos astros, conversava com eles como grandes amigos que eram, contavam piadas e dançavam em reuniões sociais. Hoje, esse tipo de afinidade é praticamente impossível e inimaginável com um grande astro.

Esse sistema de estrelismo não foi, no entanto, algo que surgiu do nada. Foi planejado pela indústria como forma de aumentar o fascínio do público para com o cinema - e uma maneira de fazer com que uma produção atraísse mais atenção, mais público e mais dinheiro. Para alguns, aqueles atores e atrizes viviam num mundo de sonhos - eram belos, ricos, tinham classe e faziam cinema. O que poucos sabem é que essa rotina de sonhos um dia acabava cansando - e o dia-a-dia de um astro não era fácil. Hoje, um ator ou atriz de sucesso entre o público ganha salários exorbitantes por um filme, sabidamente pegando de volta a quantia de arrecadação que ele sabe poder dar à produtora - mas sua vida pessoal praticamente lhe é negada. Seriam eles - não apenas hoje, mas já à décadas atrás - homens e mulheres de sorte, alçados à um nível superior, ou simplesmente peões que a indústria usava - e que aprenderam a pedir de volta aquilo que eles ofereciam?

A sobrevivência do cinema esteve, por um longo período, subordinada à existência do intérprete. Até fins de 1909, o público e os exibidores desconheciam os nomes dos atores e atrizes, que eram identificados com as companhias para as quais trabalhavam ou ganhavam destaque pelos personagens que desempenhavam. Assim, por exemplo, Florence Lawrence ficou conhecida como a "garota da Biograph". A curiosidade popular, no entanto, exigia uma identidade mais precisa para aqueles rostos que iam se tornando familiares. As empresas passaram então a pôr nos letreiros de apresentação dos filmes e nos cartazes de publicidade os nomes dos atores. O ator Bronco Billy Anderson, com seus westerns, foi dos primeiros a serem identificados.

Em 1910 ocorreu o primeiro golpe publicitário em torno de uma atriz: Carl Laemmle, fundador da Universal, anunciou a morte de sua contratada Florence Lawrence, que no entanto reapareceu em companhia do ator King Baggott, causando sensação. Daí por diante cresceria bastante a exploração pública das estrelas -- assim chamados pelos publicitários -- com a divulgação de sua vida particular e de fantasias sobre sua personalidade.

A conquista, pelo cinema, de famosos atores e atrizes de teatro mediante pagamento de altos salários também causava impacto no público. Na França, a célebre Sarah Bernhardt foi em grande parte responsável pelo sucesso de La Reine Elizabeth, filme de 1912. A competição entre os atores teatrais e os originários do próprio cinema se acirrou e os últimos passaram a reclamar salários à altura dos que eram pagos ao pessoal do palco. Nasceu assim o estrelismo.

A Europa criava suas estrelas, como Asta Nielsen, da Escandinávia, e divas italianas como Francesca Bertini, intérprete de Assunta Spina (1915) e Tosca (1918); Lyda Borelli, que começou em La donna nuda (1914; A mulher nua); Pina Menicheli, que fez Il fuoco (1915; O fogo) e Hesperia, além de Leda Gys e Maria Jacobini, atrizes consumadas e não somente estrelas. Nesse tempo, até a grande Eleonora Duse fez para o cinema uma versão do romance Cenere (Cinzas), de Grazia Deledda, em 1916. Os astros da época, na Itália, eram Mario Bonnard, Alberto Capozzi, Emilio Chione e Amleto Novelli.

Os grandes nomes femininos dos Estados Unidos na época eram Theda Bara, Mae Marsh, Lillian Gish, Constance Talmadge, Mabel Normand, Norma Talmadge e Mary Pickford. Entre atores, destacavam-se William S. Hart, Dustin Farnum, Douglas Fairbanks e Charles Chaplin.

Criado o sistema do estrelismo, os intérpretes sofreram um processo de padronização, sobretudo nos Estados Unidos, e passaram a representar tipos sempre semelhantes. As estrelas ganhavam salários astronômicos, estavam isentos de impostos e se tornavam milionários da noite para o dia. Foi o caso de Rodolfo (Rudolph) Valentino, Gloria Swanson, Pola Negri (proveniente do cinema alemão), Greta Garbo (vinda da Suécia), Janet Gaynor, Colleen Moore, John Gilbert, John Barrymore, Al Jolson, George Arliss, Ronald Colman, Clara Bow e Norma Shearer.

A partir de 1930, criaram fama mundial atores e atrizes talentosos, como Clark Gable, Joan Crawford, Jean Harlow, Leslie Howard, Gary Cooper, Carole Lombard, Mae West -- introdutora do erotismo ousado --, Henry Fonda, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Jean Arthur, James Stewart, James Cagney e Bette Davis. Muitos deles constituíam duplas, como Charles Farrell e Janet Gaynor, Jeanette MacDonald e Nelson Eddy e muitos dos acima citados.

A França do pré-guerra também criou suas estrelas, também grandes intérpretes, como Louis Jouvet e Madeleine Rosay, Jean Gabin, Viviane Romance, Jean-Pierre Aumont, Simone Simon, Danielle Darrieux, Michèle Morgan, Charles Boyer e Jean-Louis Barrault.

A virada do pós-guerra diminuiu as prioridades do estrelismo, mas nunca o destruiu, pois ele faz parte da engrenagem propagandística do cinema. Assim, brilharam de um ou outro lado do Atlântico nomes inesquecíveis como Betty Grable, Jane Russell, Esther Williams, Kirk Douglas, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Paul Nuni, George Raft, Alan Ladd, Bing Crosby, Dorothy Lamour, Anna Magnani, Jeanne Moreau, Brigitte Bardot, Rossano Brazzi, Amedeo Nazzari, David Niven, Deborah Kerr, Cary Grant, Gina Lollobrigida, Ava Gardner, Elizabeth Taylor, Shirley Temple, Mickey Rooney, Judy Garland, Robert Mitchum, Humphrey Bogart, James Dean, Errol Flynn, Aldo Fabrizzi, Alec Guiness, Rock Hudson e Marilyn Monroe, símbolo da ingenuidade e do sensualismo.

Os fatos que deflagraram a crise do cinema, especialmente o de Hollywood, na década de 1950 e subseqüentes, ensejaram o crepúsculo do star system. Primeiro foi o impacto da televisão. Depois, a proliferação das novas técnicas já mencionadas, cuja duração foi efêmera. Por fim, a tentativa de renascimento feita por meio de outro tipo de tecnicismo, o aperfeiçoamento da trucagem e dos efeitos especiais de imagem e som que, merecidamente, tornou conhecidos do público os integrantes das equipes técnicas.

O fim do estrelismo não impediu, no entanto, o florescimento de novos talentos. Nas últimas décadas do século XX destacaram-se os nomes de Robert De Niro, Michelle Pfeiffer, Al Pacino, Julia Roberts, Kim Basinger, Robert Redford, Glenn Close, Harrison Ford, Dustin Hoffman, Kathleen Turner, Sean Connery, Diane Keaton, Woody Allen, Sissy Spacek, Kevin Costner, Jessica Lange, Michael Douglas, Jane Fonda, Jack Nicholson, Tom Cruise e Sigourney Weaver.

Esta seção de CineLumiere dedica-se a desvendar brevemente um pouco da vida dos maiores astros e estrelas do cinema em seus mais de 100 anos de existência. Boa viagem.

 

Fábio Rockenbach ( Webmaster )

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